Médio
Oriente/Iranianas
desafiam o regime e circulam sem véu nas ruas após cessar-fogo
Bissau, 29 Abr 26 (ANG)-, Imagens de mulheres nas ruas
de Teerã sem cobrir a cabeça se multiplicam, desde que foi estabelecido um
cessar-fogo entre os Estados Unidos, Israel e o Irã.
O desafio ao
uso obrigatório do véu, um dos pilares da República Islâmica, levanta
questionamentos: trata‑se de um momento passageiro de tolerância, de uma ilusão
de mudança ou do sinal de uma transformação mais profunda no país?
Nas ruas da capital iraniana, a vida
voltou a ocupar o espaço público. Vendedores ambulantes e músicos retomaram as
calçadas, enquanto homens armados e postos de controle praticamente
desapareceram, com exceção de algumas praças estratégicas.
Mas o
que mais chama a atenção é a presença crescente de mulheres sem véu muitas
vestindo roupas com estilo ocidental. Para várias delas, há uma sensação
inédita de liberdade — ainda que frágil.
Ziba, iraniana de cerca de 40 anos, é
uma delas. Ela conversou com a RFI sobre o fenómeno.
“O véu nos foi imposto em 1979 como um
valor externo. Com o tempo, entendemos que não era um valor nosso. Para rejeitá‑lo
e conquistar o que queremos, pagamos um preço muito alto. Isso é uma grande
vitória. E vamos defendê‑la com unhas e dentes. Não vamos abrir mão dela.”
Durante os protestos de 2022,
desencadeados pela morte de Mahsa Amini — presa por não usar o véu “de forma
adequada” —, muitas mulheres adotaram a estratégia de carregar um lenço sobre
os ombros, caso fossem repreendidas pela polícia. Agora, até esse gesto
preventivo desapareceu. As autoridades parecem tolerar a situação e demonstram
relutância em intervir.
Essa aparente flexibilização, porém, não
convence a todas. É o caso de uma pintora iraniana, contatada de Paris,
que pediu anonimato.
“Isso não é, de forma alguma, um sinal
de mudança do governo. Não houve nenhum avanço real nos direitos das mulheres.”
Segundo ela, que vive em Teerã, a
realidade continua a mesma:
“Apesar das aparências, não houve
mudança concreta nas liberdades individuais.”
A obrigatoriedade do véu segue prevista
em lei e permanece como um dos pilares da teocracia iraniana. O que mudou foi a
aplicação da regra, agora menos rigorosa — ao menos em alguns bairros de Teerã
e em certas cidades do país.
Essa tolerância já havia sido observada
durante a guerra de Junho de 2025 contra Israel e se manteve nos protestos de Dezembro
contra o alto custo de vida. Também persiste no contexto da guerra entre
Estados Unidos e Israel, atualmente suspensa por um cessar‑fogo considerado
frágil.
“Há três anos, isso era inimaginável”,
diz Zahra, de 57 anos, moradora de Isfahan, no centro do Irã.
“Não uso mais o véu, mas gostaria de ter
vivido algo assim na juventude”, conta.
Apesar
disso,o hijab não desapareceu do cotidiano. As temidas vans brancas da polícia
da moralidade quase não patrulham mais as ruas, mas mulheres sem véu ainda
podem ser abordadas. Em bancos, universidades e prédios administrativos, o uso
continua sendo exigido.
Por trás das imagens que circulam nas
redes sociais — mulheres sem véu em cafés e espaços públicos — há também custos
e punições. Negin, gerente de um café em Teerã, lembra que a exposição cobrou
seu preço. “Pagamos muito caro por isso”, afirma. “Fomos tratadas com
brutalidade durante anos, e isso continua. Nosso estabelecimento já foi fechado
várias vezes, recebemos multas e fomos forçadas a pagar subornos.”
O que mais a revolta é o discurso
oficial. “Quando dizem que isso é ‘liberdade’ e que as mulheres hoje são mais
livres, isso me enfurece”, diz a jovem de 34 anos.
De fato, os direitos das mulheres seguem
severamente limitados no Irã. O governo reprimiu com mãos de ferro os protestos
de dezembro e janeiro, com dezenas de milhares de prisões. Durante o conflito
mais recente, milhares de pessoas também foram detidas, segundo organizações de
direitos humanos.
A ONG Anistia Internacional avalia que a
“resistência generalizada” à essa obrigação pressionou as autoridades nos
últimos anos. Hoje, imagens de mulheres sem véu aparecem até na televisão
estatal — desde que elas demonstrem lealdade ao regime e denunciem os inimigos
da República Islâmica.
Para Sahrzad, dona de casa de 39 anos,
isso não representa uma mudança real.
“Todos os dias, mais mulheres vencem o
medo e saem sem hijab. Esse movimento está se espalhando”, diz. “Mas não vejo
nenhuma transformação no sistema.”
Ela é categórica:
“Nada mudou, exceto os vídeos exibidos
na TV estatal de jovens sem véu gritando: ‘Meu líder, meu líder, eu daria minha
vida por você’.”
A realidade, no entanto, não é homogénea.
A situação varia de região para região, e ninguém sabe dizer por quanto tempo
essa relativa tolerância vai durar. ANG/RF